Encontro com a Rede Globo na UniPalmares

horizontal bar

Hillary Rodham Clinton
Secretária de Estado
Faculdade Zumbi dos Palmares
São Paulo, Brasil
3 de março de 2010

PERGUNTA: Senhora secretária de Estado, cheguei recentemente de Teerã, onde entrevistei o presidente Mahmoud Ahmadinejad. E ele estava realmente contente com o que descreveu como apoio do governo brasileiro. Minha pergunta é: a senhora também está contente?

SECRETÁRIA HILLARY CLINTON: (Risos.) Bem, permitam-me primeiro dizer o quanto estou feliz... isso está funcionando? Vocês estão me ouvindo? O quanto estou feliz de estar nesta universidade. Estou encantada por estar na primeira universidade afro-brasileira. Ela é muito similar às nossas faculdades e universidades historicamente destinadas aos negros, portanto, me sinto muito à vontade. E quero parabenizar o reitor e todos que criaram esta oportunidade de ensino superior para os alunos daqui. É maravilhoso estar aqui com William e Maria para esta conversa. E a primeira pergunta é bastante desafiadora. Ele é um jornalista experiente; ele sabe disso. Tive encontros excelentes hoje em Brasília com o presidente Lula, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, e outras pessoas sobre a situação no Irã. E temos todos a mesma meta. Essa meta é evitar que o Irã adquira armas nucleares. Tanto o Brasil quanto os Estados Unidos pensam assim. Estamos plenamente de acordo. Estamos discutindo a melhor maneira de alcançar essa meta. E ambos acreditamos que negociação e diplomacia são sempre melhor do que qualquer outra abordagem, mas às vezes é preciso colocar mais pressão para conseguir uma negociação verdadeira. Portanto, continuamos a trabalhar no Conselho de Segurança das Nações Unidas com vários outros países que compartilham das nossas preocupações para criar pressão por meio de mais sanções que atrairão a atenção do governo iraniano. E o governo brasileiro também está trabalhando para alcançar essa meta, portanto, continuaremos conversando sobre como chegar onde ambos queremos chegar.

MARIA BELTRÃO: Certo. Senhora secretária, em primeiro lugar, muito obrigada por estar aqui. Sei que todos nós, mas em especial os alunos, estamos muito satisfeitos em recebê-la aqui esta noite. E minha pergunta é: na América do Sul em geral, mas especialmente no Brasil, há um certo sentimento de insatisfação com essa lentidão que o governo Obama tem mostrado com relação a mudanças na política americana para a América Latina. Nós esperávamos um pouco mais depois do governo Bush. Podemos supor que a sua visita é parte dessa mudança tão esperada por nós?

SECRETÁRIA HILLARY CLINTON: Bem, permita-me dizer primeiro que é uma honra estar aqui em nome dos Estados Unidos e do presidente Obama. Ainda estamos muito entusiasmados com a eleição dele. E acreditamos que ele já mudou muitas coisas com relação ao modo como o mundo vê os Estados Unidos. Mudar nunca é fácil. Vocês sabem, não é fácil na vida. Você acorda um dia e diz: “Eu vou mudar. Vou estudar. Vou emagrecer. Vou começar a me exercitar.” Mas depois leva tempo para de fato concretizar a mudança. E acho que, devido ao entusiasmo gerado pelo presidente Obama no mundo todo, e em particular na América Latina, as pessoas talvez tenham se esquecido de que é difícil mudar. Se fosse fácil, qualquer um poderia mudar. Mas ele está comprometido a mudar a relação entre os Estados Unidos e a América Latina, e eu também estou. E estamos trabalhando em várias questões comuns. Hoje, em Brasília, assinamos um memorando entre os Estados Unidos e o Brasil sobre como melhorar a igualdade de gênero, para que meninas e mulheres tenham as mesmas oportunidades que meninos e homens. Conversamos sobre como trabalhar juntos nas questões das mudanças climáticas. Todos esses são problemas históricos significativos que levam tempo. Mas acho que a maioria das pessoas entende isso. Todos ficamos impacientes. Gostaríamos que tivesse acontecido ontem. Mas acho que como estou aqui no Brasil e estive antes no Uruguai, na Argentina e no Chile – o terrível terremoto lá –, as pessoas acreditam no presidente Obama e em sua visão para a relação que estamos construindo juntos.

WILLIAM WAACK: Certo. Vamos ouvir a primeira pergunta do auditório.

MARIA BELTRÃO: Não estamos vendo onde está o microfone. Ali?

PERGUNTA: Em primeiro lugar, boa noite, Hillary.

SECRETÁRIA HILLARY CLINTON: Oi.

PERGUNTA: E bem-vinda a São Paulo.

SECRETÁRIA HILLARY CLINTON: Obrigada.

PERGUNTA: Sou Amani e represento a Meninos do Morumbi. Somos um projeto social aberto à participação de todos, não importa a classe social e (inaudível)... mais sobre a cultura brasileira, assim temos aulas de dança, temos aulas de percussão, temos informática, temos aulas de inglês e vários outros tipos de aula. E lá aprendi que, se eu estudar e for dedicada, posso fazer qualquer coisa. Portanto, minha pergunta, como estudante, é como uma pessoa que queira estudar nos Estados Unidos pode conseguir isso se temos de morar lá e pagar a faculdade? É possível que o aluno sem posses trabalhe nos Estados Unidos ou isso não é possível segundo alguma lei americana?

SECRETÁRIA HILLARY CLINTON: Primeiro, quero parabenizá-la por sua forte convicção de que você pode fazer tudo o que quiser.

PERGUNTA: Obrigada.

SECRETÁRIA HILLARY CLINTON: E pelo seu entendimento de que a educação é a chave para que se possa fazer isso. É isso que esta universidade defende. Queremos aumentar os intercâmbios educacionais entre os Estados Unidos e o Brasil. Gostaria de ver milhares de estudantes brasileiros indo aos Estados Unidos todos os anos e milhares de estudantes dos Estados Unidos vindo ao Brasil todos os anos. E estamos buscando maneiras de fazer isso. Acabei de me reunir com um grupo de empresários brasileiros de empresas americanas instaladas no Brasil, empresas como Microsoft, Ford e Motorola, empresas muito famosas. Eles estão trabalhando juntos para ajudar mais estudantes brasileiros a aprender inglês. E, na verdade, informei ao reitor que eles me disseram esta noite que vão patrocinar 15 bolsas de estudo para alunos aqui da Faculdade Zumbi aprenderem inglês. Portanto, queremos ter mais iniciativas como essa. E vamos trabalhar juntos para dar a vocês mais oportunidades. E se você depois for… este é o nosso embaixador, bem aqui. É o embaixador Shannon na primeira fila. Se você procurá-lo depois, ele vai te passar mais informações sobre todos os programas e bolsas de estudo para os quais você pode se candidatar, porque provavelmente existem muito mais do que você conhece e para os quais você talvez possa se candidatar. E vamos ter, espero, mais ainda no futuro.

PERGUNTA: Certo, obrigada. E quero convidá-la a conhecer nosso projeto (inaudível) quando quiser. Obrigada.

SECRETÁRIA HILLARY CLINTON: Obrigada.

WILLIAM WAACK: (Inaudível.) Temos uma pergunta que veio pela internet bastante relacionada ao que foi perguntado agora sobre exigências de visto para estudantes brasileiros que queiram entrar em solo americano. Nós, brasileiros, somos trabalhadores esforçados nos Estados Unidos. É preciso que haja uma reforma da imigração no seu país. A pergunta é: os Estados Unidos veem a nós, brasileiros, como uma ameaça?

SECRETÁRIA HILLARY CLINTON: Não – (risos) – de maneira nenhuma. Moro em uma rua em Washington a apenas seis casas da residência do embaixador brasileiro, onde antes era o escritório de vistos da embaixada brasileira. Assim, todo dia, ao sair de carro eu costumava passar por dezenas e dezenas de brasileiros nos Estados Unidos indo renovar seus vistos ou indo ver como estavam os vistos. Queremos mais intercâmbios entre o Brasil e os Estados Unidos. Queremos mais brasileiros indo aos Estados Unidos para estudar, visitar e trabalhar e queremos mais americanos vindo ao Brasil. Agora há duas grandes razões pelas quais os americanos virão ao Brasil nos próximos anos: a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Portanto, queremos que seja mais fácil. E um dos problemas que fiquei sabendo ontem é que temos poucos lugares. Só temos a Embaixada em Brasília e três consulados, em São Paulo, Rio e Recife, e em um país tão grande quanto o Brasil isso dificulta muito para as pessoas obterem os vistos. Portanto, o embaixador e eu estamos estudando maneiras para facilitar esse processo, porque realmente queremos aumentar os intercâmbios entre os dois países. Acredito que Brasil e Estados Unidos são os dois países mais parecidos entre si do que quaisquer outros dois países do mundo.

MARIA BELTRÃO: Por que motivo?

SECRETÁRIA HILLARY CLINTON: Porque somos grandes…

MARIA BELTRÃO: Ah, sim. (Risos.)

SECRETÁRIA HILLARY CLINTON: …somos pluralistas. Somos dinâmicos. Somos geralmente felizes.

MARIA BELTRÃO: Geralmente.

SECRETÁRIA HILLARY CLINTON: Somos dois países que têm muitas coisas em comum, e quero aproximá-los mais.

MARIA BELTRÃO: Maravilha.

PERGUNTA: Vagner Morais, Direito, Zumbi dos Palmares. Hillary, considerando que no momento muito se discute sobre desenvolvimento sustentável, sobre políticas de desenvolvimento sustentável, considerando que muitos fenômenos naturais vêm ocorrendo atualmente, tais como, o fenômeno do aquecimento global, maremotos, terremotos, como aconteceu ainda há pouco no Chile, considerando que os Estados Unidos foram uma das primeiras nações do mundo a se preocupar com isso a partir da criação do Parque Nacional de Yellowstone, no estado de Wyoming, gostaria de saber da senhora, considerando ainda que o Brasil é o país que possui uma natureza muito diversa e rica, não só com relação aos aspectos da própria natureza, como também do próprio elemento humano, gostaria de saber simplesmente quais seriam os caminhos que deveríamos seguir a partir de agora para podermos ainda manter este mundo cada vez mais habitável para nós, para nossos filhos e para os filhos dos nossos filhos. Obrigado.

SECRETÁRIA HILLARY CLINTON: É uma pergunta muito importante, e acho que todos os países devem se perguntar o que estamos fazendo para preservar o que herdamos para a próxima geração. Não tivemos nada a ver com a criação da beleza que nos cerca. Quero dizer, o Brasil é um país tão bonito. Também acho o meu país bonito. E, há mais de 140 anos, líderes americanos começaram a criar parques nacionais para preservar parte da beleza contra o desenvolvimento, por isso você mencionou o Yellowstone. Há muitos outros, como o Yosemite. Há vários espalhados em todo o nosso país. E esse foi um passo muito importante. E acho que todos os países devem olhar para o seu patrimônio, seu patrimônio físico, e decidir como salvar parte dele em seu estado natural. Temos todos, então, de ser mais cuidadosos na maneira de usar a terra. Aprendemos muito. O que era aceitável cem anos atrás, porque não sabíamos fazer diferente, não é mais aceitável. Assim, devemos refletir muito sobre como extraímos as matérias-primas da terra, como aramos o solo, como poluímos o ar ou a água. Será um dos desafios mais importantes para todos os países e todos os cidadãos neste século. E a última coisa que eu diria é que a natureza é muito poderosa. Vimos dois exemplos disso no nosso continente nos últimos meses – primeiro, no Haiti, agora, no Chile. E não conhecemos todas as relações entre o que a humanidade faz à Terra e o que a Terra faz depois, mas podemos ver as cicatrizes. Podemos ver a poluição dos rios e lagos que mata os peixes. Podemos ver a poluição no ar que causa asma nas crianças, portanto sabemos que estamos fazendo coisas que causam estragos a longo prazo. E parte do nosso trabalho agora é como melhorar o padrão de vida, criar empregos, aumentar a renda das pessoas sem destruir o planeta que habitamos. E essa deve ser a pergunta de todos nós. E meu país está trabalhando muito nisso. Sei que o Brasil também está, mas temos muito a fazer.

WILLIAM WAACK: Senhora secretária de Estado, temos uma pergunta de um ator brasileiro muito popular. Uma pergunta do Milton Gonçalves, que foi pré-gravada.

MARIA BELTRÃO: Só um segundo. Só um segundo.

PERGUNTA: Senhora Hillary, após um ano sob a Presidência de Barack Hussein Obama, como estão as questões étnicas nos Estados Unidos? As ações afirmativas continuam em progressão? As conquistas dos negros americanos estão também em progressão ou paradas?

MARIA BELTRÃO: Boa pergunta.

SECRETÁRIA HILLARY CLINTON: Tenho muito orgulho do progresso feito pelos Estados Unidos nos últimos 50 anos, com o nosso movimento pelos direitos civis, com o trabalho duro e o sacrifício de líderes como Martin Luther King, Jr. e tantos outros. Nós mudamos as leis, de modo que não há barreiras legais visíveis contra afro-americanos na educação, nas profissões, nas empresas. Portanto, acabamos com a discriminação aberta. Não posso sentar aqui e dizer que acabamos com o racismo. Não posso dizer isso porque não é verdade. Assim como não posso sentar aqui e dizer que acabamos com o sexismo ou com outras formas de discriminação. Elas ainda existem no nosso país, assim como em todo o mundo. Mas os Estados Unidos fizeram muito progresso e a ação afirmativa teve grande parte nisso. Há aqueles que criticam a ação afirmativa, mas acredito que ela ajudou a superar os vestígios da escravidão e da segregação e foi importante para o nosso país superar essa fase. Agora ela não é tão usada porque existe um sentimento de que há mais igualdade. Mas ainda acredito que temos de nos concentrar nas crianças pobres – negras, brancas, mulatas, qualquer que seja a origem – que muitas vezes nascem em circunstâncias desfavoráveis, e elas ainda precisam de mais assistência com educação e saúde e com os componentes básicos de uma vida bem-sucedida. Mas a eleição de Barack Obama, muitos acreditam, foi a maior conquista de todas porque demonstrou que um afro-americano pode ser eleito presidente dos Estados Unidos. E, vejam, eu concorri contra ele, e foi uma disputa bastante acirrada, e ele ganhou justa e honestamente. Assim, acho que foi um grande tributo ao povo americano e ao sistema americano e espero que do mesmo modo, no Brasil e em outros países, esse mesmo tipo de progresso possa ocorrer.

MARIA BELTRÃO: Se me permite, a senhora disse que o sexismo ainda existe. Como o Dia Internacional da Mulher está próximo, no dia 8 de março, e temos muitos exemplos de mulheres no comando do governo aqui na América Latina... A senhora esteve com Michelle Bachelet. A senhora esteve com Cristina Kirchner. E a sua carreira é um exemplo para muitas mulheres aqui. Gostaria de uma breve resposta sobre quais são as vantagens ou desvantagens da mulher hoje na política.

SECRETÁRIA HILLARY CLINTON: Acho que a América Latina tem vários exemplos de mulheres no comando do sistema político e sei que aqui no Brasil uma mulher também vai concorrer à Presidência.

PERGUNTA: Duas.

SECRETÁRIA HILLARY CLINTON: Duas mulheres.

PERGUNTA: Duas mulheres.

SECRETÁRIA HILLARY CLINTON: Portanto, acho que é um sinal muito bom do que é possível. Mas ainda há muitas barreiras à participação das mulheres, algumas delas mais psicológicas, outras mais culturais e históricas. Mas, de novo, temos visto muitos progressos, mas ainda é preciso garantir nosso posicionamento contra a violência doméstica, porque ela não pode ser tolerada em nenhum lugar, em nenhuma circunstância; garantir que o ensino e a saúde sejam acessíveis a meninas e também a meninos. Esse não é um problema tão grande no nosso continente como é em outros países do mundo, mas ainda temos trabalho a fazer.

PERGUNTA: (Por meio de intérprete.) Muito boa noite, secretária Hillary Clinton. Sou professor de (inaudível) Direito aqui. Sou também doutor em Direito. Nosso reitor explicou muito bem o que acontece em nosso Supremo Tribunal Federal. Que recomendações técnicas a senhora faria para que ele seja totalmente imparcial nessa discussão sobre cotas raciais para universidades?

SECRETÁRIA HILLARY CLINTON: Não conheço os detalhes do caso apresentado ao seu Supremo Tribunal Federal. Mas conheço algumas estatísticas muito significativas, a meu ver. Tomei conhecimento hoje de um dado estatístico sobre a população de afro-brasileiros, que representa um pouco mais de 50% do país, mas somente dois por cento de estudantes universitários no Brasil são afro-brasileiros. Portanto, isso me faz pensar que são necessárias algumas medidas para recrutar e admitir estudantes para que tenham oportunidade de progredir. A ação afirmativa em nosso país foi uma oportunidade de entrar na universidade, não uma garantia de obter o diploma. Lecionei em uma Faculdade de Direito e tive alunos admitidos de acordo com a ação afirmativa – estudantes afro-americanos. E esses meus alunos estavam muito motivados e eram bastante ambiciosos, mas sua formação educacional antes da Faculdade de Direito muitas vezes não havia sido boa o suficiente para prepará-los para concorrer com os demais. Assim, dediquei muito tempo a meus alunos afro-americanos, muito tempo de monitoramento, muito esforço para ajudá-los a vencer. E muitos conseguiram, mas não todos. A meu ver, a ação afirmativa deveria ser o reconhecimento de que barreiras históricas estreitaram o caminho para eles. Não são muitas as pessoas que conseguem percorrê-lo. Portanto, precisa ser ampliado. E o sistema educacional é o passaporte para a oportunidade, então, vamos incluir mais pessoas nele. Vamos dar uma oportunidade a elas. Penso que o talento é universal, mas as oportunidades não. Por isso, quanto mais se universalize a oportunidade em uma sociedade dinâmica como o Brasil, mais o nível das pessoas se elevará e mais funcionará a meritocracia. Pouco antes, no encontro com diretores de empresas americanas no Brasil, eles próprios brasileiros, a questão destacada por eles foi que, com a economia brasileira em crescimento, muitas vezes a única coisa que a impede de avançar é não ter estudantes qualificados em engenharia, em TI, em número suficiente para realizar as tarefas atuais e as do futuro. Portanto, o sistema educacional precisa se expandir afirmativamente para incluir mais pessoas. E, por fim, quero contar o que aprendi quando fui professora de Direito: não é justo simplesmente admitir estudantes e ficar de lado e vê-los fracassar. Deve haver programas para ajudá-los a obter sucesso, porque muitos deles trazem problemas do passado. E assim, admiti-los com base em uma ação afirmativa e colaborar para criar o máximo de histórias de sucesso possível é o que espero ver acontecer.

PERGUNTA: (Por meio de intérprete.) Senhora secretária, boa noite. Meu nome é Leonardo, e eu gostaria de fazer uma pergunta sobre subsídios aos produtos. Os EUA é um país desenvolvido. Portanto, não poderia ser um pouco mais flexível na negociação de subsídios a certos produtos? Porque se o fizessem, ajudariam os países em desenvolvimento. E isso ajudaria esses países a se desenvolverem na área social, a se organizarem melhor, a produzir melhor e a fortalecer suas economias. Os dois lados ganhariam se os EUA fossem mais flexíveis nas negociações sobre subsídios. Você terminou a sua pergunta? É uma boa pergunta. Ambos – eu me perdi, diz o interlocutor. Portanto, os dois países... neste caso, seria uma situação benéfica para todos. Os EUA, por um lado, seria o parceiro mais forte, que nesse caso... – bem, talvez eu deva dar por encerrada a pergunta. Está certo. Você fez a pergunta.

SECRETÁRIA HILLARY CLINTON: Penso que a questão colocada por você é importante para todos os países. Creio que deve haver mais comércio e mercados abertos, mas também é verdade que todo país tem suas próprias preocupações políticas. Os Estados Unidos são um mercado muito aberto, provavelmente, em minha opinião, o mais aberto do mundo. Mas há certos setores dentro de nossa economia que tentam se proteger da concorrência global. E, como em qualquer país democrático, há pressões políticas. Assim, vamos continuar a fazer o possível para abrir nossos mercados, vamos pedir a outros países para abrir seus mercados. Vamos adotar medidas especiais, como fizemos no Haiti, cujos tecidos podem ser importados com isenção de impostos, pois queremos reconstruir o Haiti, um país tão pobre. E vamos negociar com outros países como o Brasil para criar mais abertura. A questão colocada é muito justa, mas como ocorre com tantas outras, há dimensões políticas a considerar. Temos de negociar, temos de comerciar, temos de nos esforçar para resolver da melhor maneira, mas estamos a meio caminho na tentativa de fazer mais com o Brasil e com outros países. PERGUNTA: Senhora secretária, na semana passada, vários países latino-americanos e caribenhos formaram um novo grupo.

SECRETÁRIA HILLARY CLINTON: (Risos). Sim.

PERGUNTA: Com exceção da senhora e do (inaudível). Como a senhora encara esse acontecimento?

SECRETÁRIA HILLARY CLINTON: Bem, penso que há necessidade de os países se reunirem em diferentes formações. Temos um grupo norte-americano composto por México, Estados Unidos e Canadá. Temos relações bilaterais e trilaterais com todos os tipos de países. Os Estados Unidos não as consideram como fato lamentável ou ameaçador. Consideramos mais coordenação e cooperação entre países como uma vantagem. Temos tanto a fazer neste continente que, quanto mais cooperarmos e quanto mais esquecermos antigos ressentimentos e buscarmos maneiras de resolver os problemas juntos, todos os países do continente, até os mais pobres, como por exemplo, o Haiti, contribuíram com alguma coisa. Quando os países se unem e dizem que querem colaborar e cooperar mais, os Estados Unidos estão de acordo.

PERGUNTA: (Por meio de intérprete). Senhora secretária, boa noite. Boa noite aos jornalistas. Boa noite a todos. Sou (inaudível). Infelizmente não sou estudante da Faculdade Zumbi dos Palmares. Sou advogado. Não faz muito tempo, até...pouco tempo atrás, eu era presidente da comissão não discriminatória da Ordem dos Advogados do Brasil. Muitas das perguntas que eu ia fazer já foram respondidas, então perguntarei outra coisa. O presidente Obama, diante da crise, vem trabalhando de modo diferente em comparação com o que os EUA faziam antes. O presidente Obama quase nacionalizou algumas empresas – quase, eu disse, é claro. Sabemos que as empresas americanas fazem seus negócios nos Estados Unidos de acordo com certas políticas. Portanto, porque não faríamos de tal modo que os EUA – oh, sabemos que nos EUA as empresas e corporações às vezes seguem políticas públicas de negócios, isto é, para promover melhores condições sociais e raciais. Por que não pedir a essas empresas...

SECRETÁRIA HILLARY CLINTON: Bem, é por isso que eu fiquei muito animada em encontrar algumas empresas americanas aqui no Brasil que estão fazendo exatamente isso. Elas estão pondo em prática a chamada responsabilidade social corporativa. E isso é parte importante da ética empresarial americana. A maioria das empresas americanas colabora com a comunidade, contribui para boas causas, mantém faculdades e universidades, hospitais e programas de arte. E aproximadamente 104 das empresas americanas aqui no Brasil se uniram para fazer isso no Brasil. Espero que seja contagioso, porque quanto mais empresas se envolverem nas chamadas parcerias público-privadas, tanto maior será o número de pessoas que poderão ser ajudadas. O governo não pode fazer tudo. A tarefa principal de uma empresa é obter lucro mediante contratação de pessoas e investimento. O governo e as empresas trabalhando em conjunto podem manter uma universidade como esta, podem buscar maneiras de ajudar pessoas físicas e instituições a melhorar. Você citou um fato muito bom do qual me orgulho: empresas americanas cidadãs socialmente responsáveis; e, em minha opinião, temos de ver mais disso no setor privado, pois os setores público e privado necessitam um do outro. O setor privado emprega estudantes formados nos sistemas escolares, portanto, ele precisa de um compromisso firme do governo com a educação. O governo não pode funcionar, a menos que as empresas tenham sucesso e as pessoas continuem a pagar seus impostos e a contribuir para o bem-estar do governo. Assim, os setores público e privado devem trabalhar em conjunto para o bem do país. Acho que estamos vendo mais disso no Brasil, e tenho orgulho das empresas americanas que estão contribuindo para isso.

PERGUNTA: (Por meio de intérprete.) Sou (inaudível) e coordeno a Faculdade de Direito desta universidade. Recentemente, o presidente Barack Obama mencionou Lula como "o cara", um "cara legal". Eu gostaria de dizer que a senhora, por ter sido tão amável em aceitar esse convite, é nosso "cara" também. (Aplausos.) Eu gostaria de dizer que sua participação aqui seria muito importante se a senhora pudesse convencer os grandes investidores americanos, como o professor (inaudível) diz, a investir mais e mais no Brasil, com a condição de essas corporações também investirem em políticas afirmativas aqui. Se a senhora observar, pode ver que temos uma nação muito diversificada. Contudo, as oportunidades não são as mesmas para todos nós. Talvez sua presença aqui crie uma verdadeira revolução de modo a conseguirmos essas oportunidades e realmente as conquistarmos. Muito obrigado.

SECRETÁRIA HILLARY CLINTON: Obrigada por suas palavras tão amáveis – (risos) – e sinto-me honrada em ser uma “cara legal”. (Risos). Também espero ver realizado o seu desejo. O Brasil é uma nação global. A globalização chegou ao Brasil e este país tornou-se um ator importante no cenário mundial. O que os Estados Unidos descobriram é que temos de investir em todo o povo se quisermos continuar a ter sucesso. E, no Brasil, acontece exatamente o mesmo. Esta universidade é um exemplo concreto desse tipo de investimento. Concordo com você de que talvez minha presença aqui leve esse exemplo a mais pessoas, e mais brasileiros tenham orgulho desta universidade, mas também observem o país mais atentamente para ver o que mais pode ser feito em cada parte do país para dar oportunidades a todos os brasileiros.

WILLIAM WAACK: Senhora secretária de Estado, esta é uma pergunta enviada pela internet que, uma vez mais, refere-se ao que acabou de dizer sobre o Brasil ser um ator global. Isso significa que o Brasil deverá lhe dar apoio no Conselho de Segurança, fazendo o que fazem os países mais importantes?

SECRETÁRIA HILLARY CLINTON: (Risos). Bem, penso que o Brasil é um ator global com pensamento independente, exatamente como são os Estados Unidos. Isto é, todos os países têm o direito de julgar qual é o seu principal interesse, seu interesse em segurança, seus interesses econômico e político. Trabalhamos com o Brasil em muitas questões. No Conselho de Segurança, onde haverá inúmeros problemas difíceis, o mais importante a meu ver será o que faremos com relação ao Irã, que foi sua primeira pergunta, William. Esperamos ter apoio suficiente no Conselho de Segurança para enviar uma mensagem unificada ao Irã de que eles são totalmente livres para ter poder civil nuclear para fins pacíficos. Porém, não têm direito, segundo os próprios acordos assinados por eles, a um programa de armas nucleares. E se o Irã der continuidade a seu programa de armas nucleares criará uma onda no Golfo, e os países árabes pensarão: Bem, se o Irã tem armas nucleares, é melhor também termos. Então, Israel pensará que se o Irã fica dizendo que o quer destruir e tem armas nucleares, é melhor fazer algo sobre isso. Queremos evitar tudo isso. Pensamos que o melhor modo de evitar tudo isso é o Conselho de Segurança votar novas sanções contra o Irã para chamar sua atenção e fazê-lo mudar de atitude; é isso que esperamos conseguir e estamos contando com muitos países, inclusive o Brasil, para descobrir o modo de avançar.

MARIA BELTRÃO: Portanto, a senhora não vê – desculpe, William – não vê o Brasil como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU em futuro próximo?

SECRETÁRIA HILLARY CLINTON: Bem, espero que haja uma reformulação da ONU e uma reformulação no Conselho de Segurança. Mas isso exige a concordância de muitos países e está ainda em etapa de formação. Eu gostaria de ver isso acontecer. Os Estados Unidos apoiam reformas nas Nações Unidas, mas há muitos países com muito poder que não as apoiam. Mais uma vez então, devemos trabalhar –

MARIA BELTRÃO: Ajustar.

SECRETÁRIA HILLARY CLINTON: – para que concordem.

MARIA BELTRÃO: Certo.

PERGUNTA: Boa noite. Meu nome é Tamezra. Sou estudante de Relações Internacionais e tenho duas perguntas. Uma delas é realmente muito rápida e vou deixá-la para o fim. Antes, porém, gostaria de saber sua opinião sobre as relações entre a Venezuela e os Estados Unidos, considerando que existe grande diferença de contexto político e econômico nesse relacionamento. Minha segunda pergunta refere-se a esse livro, Vivendo a História (inaudível) que a senhora escreveu há dois anos. Gostaria de saber se a senhora poderia autografá-lo para mim antes de ir embora – (risos) –, se não se importar. Significaria muito para mim.

WILLIAM WAACK: Ela é esperta.

SECRETÁRIA HILLARY CLINTON: A segunda pergunta é muito fácil. Claro, autografarei antes de ir embora. (Risos.)

PERGUNTA: Obrigada.

SECRETÁRIA HILLARY CLINTON: E se alguém mais tiver trazido um exemplar, terei prazer em autografar. Quanto à primeira pergunta, os Estados Unidos gostariam muito de ter um relacionamento positivo com a Venezuela. Tenho certeza de que vocês se lembram quando o presidente Obama foi à Cúpula das Américas, ele apertou a mão de Hugo Chávez. Trocou algumas palavras com ele. Estava se aproximando do presidente Chávez. Existem, porém, inúmeras coisas que nos preocupam com relação ao que está ocorrendo na Venezuela atualmente. Quando estive em Brasília, e hoje aqui neste ambiente universitário, vejo a imprensa livre que o Brasil tem. Vi a participação ativa da imprensa em Brasília, onde havia muitas câmeras e muitos jornalistas. O presidente Chávez está tentando sufocar a imprensa na Venezuela. Se alguém fala alguma coisa negativa sobre ele, ele tenta silenciá-lo. Uma democracia não funciona dessa maneira. Ele está se apossando de empresas e de seus ativos e, agora infelizmente, vemos os resultados dessas políticas econômicas. Há escassez de eletricidade na Venezuela, um país que tem petróleo. Isso não faz sentido. Desejamos um futuro melhor para o povo da Venezuela. Desejamos que seu governo aja mais no interesse de todas as pessoas. Desejamos também que haja menos retórica e ameaças provenientes da Venezuela. Mas isso não é escolha nossa; é escolha deles. Posso apenas repetir aqui o que o presidente Obama e eu dissemos em diversas oportunidades: Queremos ter um relacionamento positivo, mas nas atuais circunstâncias está difícil.

PERGUNTA: Muito brevemente, senhora secretária de Estado...

SECRETÁRIA HILLARY CLINTON: Sim.

PERGUNTA: O presidente Obama está se dirigindo a todos em toda parte, aos países muçulmanos, ao Irã, à China, a Chávez. Não está funcionando.

SECRETÁRIA HILLARY CLINTON: Bem, não concordo com isso. Acredito que esteja funcionando em muitos, muitos lugares, mas também está expondo os governos e líderes que têm uma agenda diferente. Quando o presidente Obama disse no dia de sua posse que os Estados Unidos estenderiam a mão a todos os países, mas que eles teriam de desarmar o punho, ele estava sendo sincero e tem agido com coerência. Ele tem sido muito sincero. O que vimos então? Vimos muito entusiasmo e receptividade a essa nova abordagem em muitas partes do mundo. O presidente Obama é muito popular na América Latina porque, creio, as pessoas veem alguém que quer fazer a coisa certa e que está trabalhando muito para conseguir isso. Mas existem líderes em países que apenas querem governar do modo que decidem. Eles não querem tornar seu povo mais livre, eles não querem retirar privilégios especiais da elite e compartilhá-los com o povo, eles não querem mudar. Creio, então, que deixamos isso muito exposto. Muitas pessoas dizem, bem, o motivo pelo qual o Irã não respondeu é porque eles não gostavam do presidente anterior. Por isso o presidente Obama disse: vamos mudar, vamos conversar. Não está havendo nenhum retorno. Por isso acredito que foi uma política muito boa mostrar o compromisso do presidente Obama, mas também expor os que têm uma agenda diferente.

MARIA BELTRÃO: Vamos ter eleição presidencial no Brasil este ano...

SECRETÁRIA HILLARY CLINTON: Sim.

MARIA BELTRÃO: ...e a senhora estava falando de preocupações e de líderes. Há alguma questão na política ou na agenda do Brasil que possa preocupar os Estados Unidos com relação ao próximo presidente?

SECRETÁRIA HILLARY CLINTON: Não, não, porque confiamos na democracia do Brasil.

MARIA BELTRÃO: Certo.

SECRETÁRIA HILLARY CLINTON: Trata-se de democracia viva, dinâmica Acreditamos que a eleição será empolgante. Vou acompanhá-la nos Estados Unidos. Acreditamos também que seja quem for o próximo presidente teremos boas relações com os Estados Unidos e continuaremos a trabalhar juntos.

PERGUNTA: (Por meio de intérprete.) Boa tarde, senhora secretária. Meu nome é Luciano. Sou estudante de Direito aqui na Zumbi e também cuido de adolescentes com problemas. Queria perguntar quais as políticas dos Estados Unidos para defender crianças, adolescentes e combater o tráfico de pessoas nos Estados Unidos? O que os EUA estão fazendo quanto a isso? E o que os EUA estão fazendo com relação... falamos tanto sobre não construir bombas nos EUA, mas como o presidente Obama reage ao que o presidente Bush fez no Iraque?

SECRETÁRIA HILLARY CLINTON: Bem, em primeiro lugar, permita-me agradecer-lhe por ajudar adolescentes. Há tantas crianças e adolescentes precisando de ajuda. Talvez não tenham famílias para cuidar deles. Eles estão em situação difícil, por isso lhe agradeço. Nós, nos Estados Unidos, estamos muito empenhados em trabalhar contra o tráfico. Essa é uma questão que me interessa pessoalmente e em que venho trabalhando há muitos anos. Temos leis muito severas contra o tráfico. Processamos traficantes. Tentamos desmantelar as quadrilhas que contrabandeiam pessoas através de nossas fronteiras. E também produzimos todos os anos um relatório que classifica os países de acordo como eles estão se saindo, incluindo nós próprios este ano. E vemos algumas tendências muito positivas. Cada vez mais países estão levando a sério o combate ao tráfico de pessoas, em particular de crianças. Promulgaram leis a respeito. Estão fazendo cumprir essas leis. Porém alguns países ainda não querem admitir que têm um problema, por isso temos de continuar a trabalhar nisso. Mas o tráfico de seres humanos é a escravidão moderna. Deve ser condenado por todos. A polícia deve desmantelar essas quadrilhas e resgatar as pessoas que foram traficadas para fins de escravidão sexual ou trabalho forçado. Os promotores públicos e os juízes devem ser muito rigorosos com os traficantes. Deve haver programas de reabilitação para as pessoas que foram abusadas pelos traficantes. Espero também vermos uma grande onda de apoio a programas mais rigorosos contra os traficantes. Quanto à segunda pergunta, vocês já sabem, creio, que o presidente Obama é muito diferente, tem uma visão do mundo muito diferente, e creio ser esse um dos motivos de ele ser tão popular no mundo inteiro.

PERGUNTA: (Por meio de intérprete.) Boa noite, secretária de Estado, Marcos Leone. Estudei Transporte Terrestre aqui nesta universidade. No Brasil, temos muitas estradas. Temos blocos econômicos. Temos o Brasil, a Bolívia, o Equador, outros países, como vocês, têm o Nafta no Norte. E, durante esta crise econômica, diversos blocos econômicos sofreram muito. Sofreram em termos de economia, em termos de salários. O que os EUA fizeram em termos de transporte para enfrentar a crise? Crise de passageiros, transporte de passageiros e também de mercadorias. Mudamos o modo pelo qual transportávamos as pessoas e os fretes aqui no Brasil, e acredito que devíamos fazer muitas reformas em termos de transporte a fim de nos preparar para lutar contra qualquer possível crise econômica futura.

SECRETÁRIA HILLARY CLINTON: Bem, concordo, porque me atrasei hoje por causa de um acidente na estrada.

WILLIAM WAACK: Não, é normal.

SECRETÁRIA HILLARY CLINTON: É normal.

MARIA BELTRÃO: Rotina.

SECRETÁRIA HILLARY CLINTON: Então sou totalmente a favor de melhorar os transportes no Brasil e também nos Estados Unidos. O que fizemos, porque é uma pergunta muito boa... o que fizemos no ano passado no governo Obama foi investir em mais estradas, investir em trens de alta velocidade, investir para modernizar metrôs e outros transportes de passageiros. Quando o presidente Obama submeteu seu projeto de lei de incentivo ao Congresso, boa parte do dinheiro foi para melhoria nos transportes, manutenção e novas formas de transporte. Não sei quantas horas por semana as pessoas no Brasil perdem por causa de problemas no transporte, mas provavelmente o americano médio perca um ano inteiro no decorrer da vida parado no trânsito, esperando em aeroportos fechados ou em atrasos de trens, todos esses problemas. Esse é um problema, portanto, em todos os países. No século 21, vai piorar a não ser que planejemos com antecedência. Assim, nosso país está tentando fazer isso sob a liderança do presidente Obama, e creio que todos nós teremos de enfrentar a necessidade de sermos mais eficientes na movimentação de pessoas e mercadorias, se quisermos manter nosso crescimento econômico e obter seus benefícios.

WILLIAM WAACK: Temos dois minutos. (em português.)

PERGUNTA: (Por meio de intérprete.) Boa noite. Meu nome é Medina. Sou estudante de Direito de (inaudível). Também tive a grande oportunidade de ir para os Estados Unidos com uma bolsa de estudo dos EUA (inaudível) e fico muito grata por essa oportunidade. Não tenho certeza se a senhora sabe que o direito ao aborto não existe no Brasil, não apenas não é legal como também é um crime. E muitas, talvez milhares de brasileiras, morrem todos os anos em decorrência de abortos ilegais, tornando-os a principal causa de morte de mulheres grávidas neste país. O direito ao aborto também não está ao alcance de todas as mulheres americanas. Quais são as medidas, quais são as iniciativas agora no mandato do presidente Obama para mudar essa situação nos Estados Unidos? Obrigada.

SECRETÁRIA HILLARY CLINTON: Bem, o presidente Obama e eu acreditamos no direito de escolha da mulher. E o presidente Obama reverteu políticas do governo anterior que impediam as mulheres de tomar uma decisão bem fundamentada. Também reverteu o que se chama de regra da mordaça com relação a informações provenientes de programas de ajuda a mulheres do mundo inteiro. Ele também investiu muito em serviços de planejamento familiar para que todas as mulheres tenham oportunidade de exercer seus próprios direitos. Essa é uma questão que acredito ser de igualdade social e de justiça social, porque as mulheres ricas têm direitos em todos os países e as pobres, não. Escrevi sobre isso em meu livro É Tarefa de Uma Aldeia. Visitei um hospital aqui no Brasil nos anos 1990 e jamais esquecerei o que um dos médicos me contou, que aquele era um hospital que tinha os melhores e os piores sentimentos. Eu disse: “O que significa isso?” Ele disse: “Metade do hospital são mulheres tendo filhos, e ficam muito animadas. E a outra metade são mulheres que estão sofrendo de abortos ilegais e estão muito tristes.” Jamais esquecerei isso. Sei que em todos os países essa é uma decisão que cabe ao povo do país, mas creio ser algo que precisa de muita reflexão por causa do grande efeito sobre o número de crianças que as mulheres pobres têm sem poder educar, alimentar adequadamente, cuidar, o grande número de vítimas de abortos ilegais e a negação às mulheres de exercer esse direito pessoal fundamental. Portanto, o presidente Obama adotou medidas desde que se tornou presidente para dar às mulheres o direito de escolha e para fazermos o que pudermos para ajudar a evitar que as mulheres tenham de fazer essa escolha, por meio de melhor planejamento e melhores informações e instrução.

WILLIAM WAACK: Última pergunta: quando o presidente Obama virá ao Brasil? (Risos.)

SECRETÁRIA HILLARY CLINTON: Bem, direi a ele que está convidadíssimo. Ouvi isso do presidente Lula e agora de você e transmitirei isso a ele. Ele está trabalhando muito para conseguir que a reforma da saúde seja aprovada nos Estados Unidos. Tendo sido senadora, sei como isso é difícil. Ele continuará a trabalhar nisso até conseguir, e então talvez tenha condições de fazer uma pausa, e sei que ele adoraria vir ao Brasil.

MARIA BELTRÃO: Secretária Hillary, a senhora foi senadora, primeira-dama, tinha uma carreira jurídica importante, agora é secretária de Estado. Qual foi o trabalho mais difícil, ser mãe, talvez? Não.

SECRETÁRIA HILLARY CLINTON: Acho que é ser mãe. Acho que é o trabalho mais importante que jamais tive e o que me dá mais alegria. Minha filha se casa no terceiro trimestre e estou muito animada com isso. Tenho sido muito afortunada. Sinto que tive muitas vantagens. Tive uma família que me apoiou. Tive pais que acreditavam que as meninas tinham tanto valor quanto os meninos e que podiam ser gente como eles. Tive excelentes professores na escola. Tive muitas vantagens. Portanto, tenho sido muito abençoada e sou grata por isso. Sirvo um país que amo, trabalho com um presidente que admiro e acredito que esta é uma época muito especial da História. Portanto, não posso me queixar de nada a não ser de como é difícil o trabalho. Mas isso é algo que aprecio. Agradeço, então, a todos vocês por estarem comigo nesta universidade. Desejo muito sucesso a essa universidade. Pela qualidade das perguntas, vocês têm um corpo docente maravilhoso e excelentes alunos, e espero que grandes coisas surjam desta universidade no futuro. Obrigada por me oferecerem isso esta noite.

MARIA BELTRÃO: Muito obrigada.

WILLIAM WAACK: Hillary, obrigado pela conversa.